quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Coisas da minha adolescência I

Devo ter sido uma criança traumatizada porque lembro-me de pouquíssimos acontecimentos da minha infância, mas mais grave, também não me lembro de muitos da minha adolescência. Este é um deles que tinha apagado da minha memória que uma amiga de longa data fez-me o favor de recordar.

No fim da Av. Conde Valbom, existe do lado esquerdo um prédio já antigo, como a maior parte dos prédios que ali existem. No r/c desse prédio vivia a minha explicadora de Francês, a Dra. ALice, a quem eu e a Mariana, que também ia lá ter explicações...mas de português, chamavamos a "Sereia Careca".
A Dra. Alice, como queria ser tratada, era uma sra. centenária de cabelos brancos, tinha sido professora no liceu Francês, era familiar de um grande pintor português, que dizem ter sido o fundador do Naturalismo em Portugal, usava um perfume que ainda hoje não consigo cheirar (Tuscany), obrigava-nos a abrir o dicionário na página certa (obrigado dicionário online por existires!). A casa, com relíquias intocáveis...cheirava a chichi de gato com refogado, embora não houvesse gatos lá por casa, nem grandes cozinhados. Dizia ser da altura do primeiro carro em Portugal e jurava a pés juntos ter visto uma sereia. UMA SEREIA? Sim, uma sereia, esse ser da mitologia grega (achavamos nós), metade peixe metade mulher!
No meio de um dicionário existia um pequeno papel com um desenho mal feito de uma sereia com uma particularidade, era careca.
Um dia, ganhei coragem e perguntei-lhe o que era aquele desenho (a Mariana já tinha levado com a história e o desenho tinha servido de exemplo, eu já sabia a história mas queria ouvir directamente da fonte), contou-me com a maior naturalidade, que ao passear na praia tinha encontrado um ser muito bonito e frágil, deitado na areia, e que era uma sereia, mas que não era uma sereia como as que estavamos acostumados a ver ( na Costa da Caparica ou na Linha?), era muito pequena e careca. Fica aqui o desenho, que está na minha cabeça há 15 anos... é inesquecível.
Written by a friend...

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